Entre lágrimas e angústias…

Na quinta-feira fui acordado antes do que era previsto pelo meu despertador. No rádio, o alerta de um dos meus veteranos… Pensei logo que algo de ruim havia acontecido, afinal ainda eram seis da manhã. Quando devolvi o alerta, informando que estava ouvindo, ele só me respondeu para ir para o batalhão o mais rápido possível - nesse momento tive a certeza de que algo de ruim realmente aconteceu. Tentei contato pelo caminho, mas não consegui. Chegando no Batalhão troquei de roupa, e uma viatura apareceu diante de mim, antes mesmo de chegar no gabinete do oficial de dia; um dos policiais me disse para entrar na viatura que ele estava indo para lá… Como assim? - pensei. Lá aonde? Na sacopã tenente, onde os companheiros morreram. Engoli a seco. Sacopã, aquele endereço não era estranho para mim.

Quando cheguei ao local haviam isolado a viatura, o ambiente estava infestado de repórteres, curiosos e policiais. Lembro de me aproximar cumprimentar meu comandante e logo em seguida estender o lençol branco que cobria a viatura… No momento eu não chorei, mas quando olhei para a cara de outro veterano que estava de serviço na noite passada, com o mesmo semblante abalado dos demais companheiros que estavam ali é que caiu a ficha.  Meus companheiros estavam mortos, mas não apenas mortos… Estavam cruelmente dilacerados. Contive as lágrimas, não era o momento. Peguei um saco plástico e ajudei a perita a recolher algumas evidências. Depois escoltei os corpos ao I.M.L. Permaneci com a família dos meus amigos o tempo todo. Após muito desgaste no Instituto conseguimos a liberação do corpo do CB Alves, o enterro ia ser no mesmo dia, às 17 horas. Fiquei chocado quando soube através de companheiros policiais que o nosso amigo, brutalmente assassinado, não sairia para o seu funeral vestido, fardado, como merecia. O Ilustríssimo Sr. Diretor do I.M.L havia me dito que isso não era sua função, era da funerária, me deu às costas e voltou para seu gabinete - obrigado, respondi… Retirei o corpo daquele herói dentro de um saco preto; e o escoltei até o Jardim da Saudade, um local já conhecido por todos os meus companheiros de farda, um lugar cativo, um lugar onde não somos nunca barrados, onde já somos quase que uma ornamentação. O outro companheiro, o SGT Gomes foi enterrado no dia seguinte…

Como disse eu havia segurado as lágrimas. Hoje (sábado - 10:08 hs - 19/07/2008) estou aqui, após uma noite exaustiva de serviço, onde o clima de tensão e medo da tropa era uma constante, misturada com a vontade de combater de frente (e não pelas costas, de forma covarde) os criminosos que tiraram a vida de nossos amigos; lembrando-me do cartaz preto, colocado bem próximo de onde estava a viatura de nossos amigos mortos, com os dizeres: “Mataram aqui dois seres humanos, que trabalhavam em condições desumanas” - Rio de Paz; meus olhos finalmente deixaram as lágrimas escorrerem… E a minha sensação de revolta é enorme. Revolta por dois seres humanos que deram suas vidas por um salário de miséria, por uma sociedade hipócrita - que a dias atrás estava vaiando a sua Polícia - e por um governo que não valoriza nossos sacrifícios.

Até quando vamos aceitar isso? Aceitar os exorbitantes salários de legisladores, alguns até sem qualquer instrução - acéfalos a bem da verdade - enquanto nossos médicos, professores e policiais vivem com uma renda ridícula, com um salário que não valoriza sua importância social. Saúde, Educação e Segurança são os pilares de uma sociedade, e enquanto vivermos sem a valorização destes profissionais o desequilíbrio econômico e social, a alienação das camadas mais pobres, a corrupção e o caos, continuarão a reinar em nosso país. Rezo todos os dias para que um verdadeiro idealista tome o poder, para que a corrupção do legislativo e do judiciário finalmente acabe e, o mais importante, para que a sociedade abra seus olhos. Rogo para que a sociedade se una e exija tais mudanças. Exija o fim do jeitinho brasileiro, da corrupção, do descaso com o povo…

E hoje, rezo para as almas desses dois companheiros. Que eles não virem apenas números e estatísticas.

Amém.

6 Responses to “Entre lágrimas e angústias…”

  1. Mais dois inocentes mortos no Rio de Janeiro Says:

    [...] Veja o relato do Tenente Ferreira, do 23º BPM, que participou dos acontecimentos naquele fatídico dia. [...]

  2. Alexandre de Sousa Says:

    LINKEI esse texto.

    A melhoria de qualidade dos seu blog é latente. Parabéns!

  3. José Heleno de Oliveira Says:

    Eu gostaria de debater com quem quiser sobre os verdadeiros problemas da PM do Rio de Janeiro. Quero ver se tem alguém com coragem de falar sobre os verdadeiros problemas da PM que não são de hoje, mas começaram quando o RJ deixou de ser a capital do Brasil. Estarei aguardando que quiser debater seriamente estes verdadeiros problemas. Um abraço a todos os verdadeiros brasileiros. Heleno

  4. Angela Cristina Pereira Ferreira Says:

    Tenente, eu sou a irmã do Alves e agradeço a vc por todo apoio prestado a minha família naquele dia horrível… Eu vi toda a sua dedicação para com meu irmão, e jamais vamos esquecer isto. Eu gostaria que toda a população soubesse que existem policiais militares como vc e meu irmão que honram sua farda e trabalham para uma sociedade mais segura e tranquila. Sabe ontem eu estava vendo os pertences do meu irmão e achei um papel que continha a oração do policial e um trecho me emocionou que dizia que muitas vezes vcs passam a noite em ruas desertas, frias e silenciosas para garantirem o sono tranquilo das pessoas… poucos valorizam isto, mas eu reconheço em vc e no meu irmão e em todo o Batalhão grandes policiais que irão servir de exemplo com certeza para os meus sobrinhos que pretendem se tornarem em um de vcs. Um abraço

  5. CHRISTINA ANTUNES FREITAS Says:

    Sr. Tenente, Boa Noite!

    Além de toda a dor de perdermos Policiais cruelmente assassinados, li hoje no jornal, que no mesmo lugar, mais uma viatura está baseada com dois Policiais esperando a morte chegar…
    Chega a ser ofensivo a Família Militar Estadual esta tomada de posição.
    Querem encarar bandidos (PARECE ATÉ ATITUDE DE GAROTOS QUE CHAMAM OUTROS PARA BRIGA: MARCAM O LUGAR) que passam em carros poderosos, com dois Policiais parados, como alvo fixo?
    Seria bom um pouco mais de respeito com todos nós.
    Pelo menos umas semanas com carro descaracterizado, já que deve ser uma área terrível…
    Um deboche!
    Vamos pedir à Deus pela vida desses homens!

    Um abraço,
    CHRISTINA ANTUNES FREITAS

  6. Jorge Bengochea Says:

    MInhas sinceras condolências a todos vocês que integram esta valorosa e brava PMERJ. Solicito permissão para incluir esta manifestação no meu site. A muito tempo,mesmo distante, acompanho e estudo a evolução do cenário de guerrilha que vocês atuam. Registrei isto no meu livro “Ordem e Liberdade”, onde consta uma sugestão para dar um fim a esta insanidade. Pena que nossos governantes não querer agir e dar um fim a esta guerrilha e ao sofrimento do povo fluminense. Vocês são mais heróis do que todos nós, agentes policiais que integram as forças policiais estaduais neste país. Somos desvalorizados, depreciados e discriminados pelos governantes e já estamos perdendo a confiança a sociedade. Querem uma polícia desarmada, medrosa, indiferente, dividida, mal paga, destreinando e abandonada pelo Executivo e pela justiça. Até quando?

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