Rebelião das tropas - ESTUDO DE CASO


Polícia Militar faz greve, consegue aumento de 48% e espalha onda de reivindicações pelos Estados 

IVAN PADILLA

A voz grave do arcebispo de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes de Araújo, ecoou pelos salões da sede do governo mineiro no final da tarde da quinta-feira 26. Ele rezou o Pai Nosso e pediu a ajuda divina pouco antes do início da reunião que encerrou a tumultuada greve da Polícia Militar de Minas Gerais. Mais discreto, o cabo Júlio César Gomes, principal líder dos policiais rebeldes e pastor de uma congregação da Igreja Metodista, preferiu orar em voz baixa. “Que Deus proteja nossos irmãos de farda e ilumine a todos aqui presentes para que possamos chegar a um acordo”, sussurrou. As preces foram atendidas. Depois de uma negociação tensa que durou mais de três horas, terminou a inédita paralisação de soldados e oficiais de baixa patente - cabos, sargentos e subtenentes - nos 225 anos de existência da corporação. Foram duas semanas de greve que, segundo lideranças do movimento, envolveu pelo menos 80% dos 42 mil policiais militares de todo o Estado. A capital mineira, principal foco das manifestações, assistiu a invasão em suas ruas de jipes e tanques do Exército e o confronto entre os próprios companheiros de farda. O saldo final do movimento foram um ferido, o cabo Valério dos Santos de Oliveira, 36 anos de idade e 17 de corporação - que levou um tiro na cabeça e continuava em estado de coma até a sexta-feira 27 -, e o imenso desgaste político do governador Eduardo Azeredo, que acabou concedendo um aumento de 48%, elevando o piso salarial de R$ 415 para R$ 615. 

A imagem do governador estava tão arranhada que, para não comprometer as negociações sobre o fim da greve, ele retirou-se da sala logo após o início das conversas. Desde que Azeredo assumiu o governo em 1995, dois graves problemas em Minas tiveram grande repercussão no País. Um, em janeiro deste ano, foi provocado pela natureza: as chuvas de verão que causaram grandes estragos em todo o Estado. O outro, agora, foi a rebelião dos PMs. Nos dois momentos, Azeredo estava ausente. Fora viajar pelo mundo. Em janeiro, o governador se recusou num primeiro momento a interromper suas férias pela Europa. Só voltou dias depois do início da tragédia, que atingiu 193 cidades e deixou 79 mortos, 91 feridos e 43 mil desabrigados. Desta vez, o governador tinha uma excursão para a Europa marcada para a sexta-feira 13 de junho. Foi justamente o dia em que dois mil policiais militares realizaram uma passeata até o Palácio da Liberdade, sede do governo. Era a primeira manifestação aberta depois de iniciada a crise. O governador adiou a viagem para dois dias depois. Passeou pela Eslovênia, Alemanha e Hungria com uma comitiva de empresários, propagandeando o seu Estado. Um secretário de governo admitiu que Azeredo errou feio ao se ausentar do País, mais uma vez. “Ele não acreditou na consistência da greve e achou que a crise estava contornada.” De volta à capital mineira, em 21 de junho, o governador tentou encerrar a greve com a concessão de um abono fixo de R$ 102. Era pouco para um movimento que ganhava corpo em todo o Estado. Também demitiu quatro comandantes da PM. Mas o momento mais dramático aconteceu na tarde de terça-feira 24. Durante um ato público em frente ao Comando Geral da PM, cerca de seis mil soldados entraram em confronto com a chamada tropa da legalidade, um grupo de 800 policiais militares não-grevistas. No meio da confusão, o cabo Oliveira, também evangélico, casado, pai de dois filhos e salário de R$ 472, tentava acalmar seus colegas quando um tiro atravessou sua cabeça. O suspeito de tê-lo atingido é o soldado Wedson Campos Gomes, 30 anos, identificado a partir de imagens de televisão. Preso, Gomes alega inocência e diz que atirou para cima. “Valério era meu amigo. Jamais eu iria atirar nele”, afirmou. 

Considerado um policial exemplar e muito religioso, o cabo ferido tornou-se uma espécie de mártir do movimento grevista, o que insuflou os ânimos dos demais militares. Sem o controle da PM no Estado, Azeredo, apavorado, telefonou para o presidente da República em exercício, Marco Maciel - que substituía Fernando Henrique Cardoso, em viagem aos Estados Unidos. Pediu a intervenção do Exército e Maciel atendeu. Por volta das 17h, menos de duas horas depois de o cabo ter sido ferido, cerca de mil homens armados de fuzis, vindos do Batalhão de Infantaria de Sete Lagoas, a 50 quilômetros de Belo Horizonte, guardavam o Palácio da Liberdade e o Palácio das Mangabeiras, residência oficial do governador. Assim que desembarcou no Brasil, no final da noite da terça-feira 24, o presidente Fernando Henrique ligou para Azeredo e ofereceu mais tropas ao governo mineiro. No dia seguinte, tanques e jipes do Exército circulavam pelas ruas da capital mineira. Na quinta-feira 26, FHC e Azeredo falaram novamente em três ocasiões. 

A preocupação do governo federal era que a assembléia marcada para a manhã do dia seguinte se tranformasse em nova passeata e fugisse totalmente ao controle. O temor maior era que a crise ultrapassasse as divisas de Minas e influenciasse as PMs de outros Estados. Isso, no entanto, pode estar prestes a acontecer. Representantes de 16 entidades de policiais militares de São Paulo já começam a se mexer para reivindicar aumento de salário. Manifestações estão sendo programadas para o Dia do Soldado, em 25 de agosto, e a Associação dos Cabos e Soldados da PM de São Paulo pediu ao governador Mário Covas uma audiência urgente. No Rio, está sendo organizada uma passeata para o dia 23 de julho. Os PMs pretendem cobrar promessa de campanha do governador Marcelo Allencar de aumento salarial. Movimentos semelhantes começam a ocorrer no Ceará, no Pará e Distrito Federal e podem se alastrar pela Paraíba, Espírito Santo e Bahia. 

O governo federal avalia que faltou sensibilidade política ao governador Eduardo Azeredo para conter o movimento iniciado pelos policiais mineiros. O primeiro erro foi conceder no dia 5 um aumento de 14% a 21% só para os oficiais, o que provocou a ira das tropas. O segundo foi não perceber que a PM mineira se transformara num barril de pólvora, prestes a explodir. Ao final das negociações, outra vez Azeredo teria sido inábil, conforme o entendimento do Palácio do Planalto. Ao ceder às pressões dos policiais e conceder o aumento salarial, ele pode incentivar novas rebeliões militares por todo o País. “As conquistas obtidas por nossa greve abrem um precedente histórico. Antes, a Polícia Militar dependia da movimentação de outros funcionários públicos para obter reajustes salariais”, disse o líder Júlio Gomes, 27 anos de idade e nove de PM. Na sexta 27, enquanto dois mil homens do Exército ainda protegiam a sede do governo mineiro e os PMs voltavam ao trabalho, o evangélico Gomes rezava na igreja Metodista do bairro Milionários, na periferia de Belo Horizonte, onde é pastor. “Sinto que mudamos a história da corporação.” 

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