Entre lágrimas e angústias…
sábado, julho 19th, 2008
Na quinta-feira fui acordado antes do que era previsto pelo meu despertador. No rádio, o alerta de um dos meus veteranos… Pensei logo que algo de ruim havia acontecido, afinal ainda eram seis da manhã. Quando devolvi o alerta, informando que estava ouvindo, ele só me respondeu para ir para o batalhão o mais rápido possível - nesse momento tive a certeza de que algo de ruim realmente aconteceu. Tentei contato pelo caminho, mas não consegui. Chegando no Batalhão troquei de roupa, e uma viatura apareceu diante de mim, antes mesmo de chegar no gabinete do oficial de dia; um dos policiais me disse para entrar na viatura que ele estava indo para lá… Como assim? - pensei. Lá aonde? Na sacopã tenente, onde os companheiros morreram. Engoli a seco. Sacopã, aquele endereço não era estranho para mim.
Quando cheguei ao local haviam isolado a viatura, o ambiente estava infestado de repórteres, curiosos e policiais. Lembro de me aproximar cumprimentar meu comandante e logo em seguida estender o lençol branco que cobria a viatura… No momento eu não chorei, mas quando olhei para a cara de outro veterano que estava de serviço na noite passada, com o mesmo semblante abalado dos demais companheiros que estavam ali é que caiu a ficha. Meus companheiros estavam mortos, mas não apenas mortos… Estavam cruelmente dilacerados. Contive as lágrimas, não era o momento. Peguei um saco plástico e ajudei a perita a recolher algumas evidências. Depois escoltei os corpos ao I.M.L. Permaneci com a família dos meus amigos o tempo todo. Após muito desgaste no Instituto conseguimos a liberação do corpo do CB Alves, o enterro ia ser no mesmo dia, às 17 horas. Fiquei chocado quando soube através de companheiros policiais que o nosso amigo, brutalmente assassinado, não sairia para o seu funeral vestido, fardado, como merecia. O Ilustríssimo Sr. Diretor do I.M.L havia me dito que isso não era sua função, era da funerária, me deu às costas e voltou para seu gabinete - obrigado, respondi… Retirei o corpo daquele herói dentro de um saco preto; e o escoltei até o Jardim da Saudade, um local já conhecido por todos os meus companheiros de farda, um lugar cativo, um lugar onde não somos nunca barrados, onde já somos quase que uma ornamentação. O outro companheiro, o SGT Gomes foi enterrado no dia seguinte…
Como disse eu havia segurado as lágrimas. Hoje (sábado - 10:08 hs - 19/07/2008) estou aqui, após uma noite exaustiva de serviço, onde o clima de tensão e medo da tropa era uma constante, misturada com a vontade de combater de frente (e não pelas costas, de forma covarde) os criminosos que tiraram a vida de nossos amigos; lembrando-me do cartaz preto, colocado bem próximo de onde estava a viatura de nossos amigos mortos, com os dizeres: “Mataram aqui dois seres humanos, que trabalhavam em condições desumanas” - Rio de Paz; meus olhos finalmente deixaram as lágrimas escorrerem… E a minha sensação de revolta é enorme. Revolta por dois seres humanos que deram suas vidas por um salário de miséria, por uma sociedade hipócrita - que a dias atrás estava vaiando a sua Polícia - e por um governo que não valoriza nossos sacrifícios.
Até quando vamos aceitar isso? Aceitar os exorbitantes salários de legisladores, alguns até sem qualquer instrução - acéfalos a bem da verdade - enquanto nossos médicos, professores e policiais vivem com uma renda ridícula, com um salário que não valoriza sua importância social. Saúde, Educação e Segurança são os pilares de uma sociedade, e enquanto vivermos sem a valorização destes profissionais o desequilíbrio econômico e social, a alienação das camadas mais pobres, a corrupção e o caos, continuarão a reinar em nosso país. Rezo todos os dias para que um verdadeiro idealista tome o poder, para que a corrupção do legislativo e do judiciário finalmente acabe e, o mais importante, para que a sociedade abra seus olhos. Rogo para que a sociedade se una e exija tais mudanças. Exija o fim do jeitinho brasileiro, da corrupção, do descaso com o povo…
E hoje, rezo para as almas desses dois companheiros. Que eles não virem apenas números e estatísticas.
Amém.



